A “Tomada da Bastilha” em pleno Século XXI
Saiu em uma matéria da EBC: ”Autoridades argumentam que a existência de motivações variadas e a falta de liderança entre os participantes dificultam o processo de negociação.” Essa é a constatação do despreparo das autoridades e da desqualificação de suas assessorias no que diz respeito à nova conjuntura. Não entenderam nada. Não existe “negociação”.
Ficaram estacionados nos anos 1980, ou ainda menos. Pensam como velhos e ultrapassados sindicalistas envoltos em suas ideologias já sepultadas sob os escombros do Muro de Berlim. Acham que a manifestação deveria ter uma “pauta” de reivindicações. Ora, a pauta é a própria circunstância.
A onda de manifestações não é nada além de a sociedade externando sua indignação diante de um contexto. O povo acordou para cobrar tudo. Enquanto os governos enaltecem os estádios faraônicos no chamado “padrão Fifa”, a sociedade não enxerga a contrapartida do Estado para a sua vida efetiva. Faltam serviços básicos constitucionais como saúde, educação, segurança, transporte, infraestrutura.
A sociedade brasileira acordou da ficção vendida à longas prestações do fantasioso poder de compra, e quer, agora, o bem-estar social sonegado pelos governos, o bem-estar de fato e de direito.
Ainda se culpa as manifestações a uma articulação da “direita golpista”. Sequer têm noção do que são hoje as “novas esquerdas” e qual o papel delas na conjuntura. Os termos “direita” e “esquerda” como definição por tendência ideológica política estão sepultados como já disse. Não existe mais qualquer consistente diferença ideológica. Hoje, praticamente se resume a disputa entre quem está no poder e quem está fora dele. Hoje é preciso discutir a função do Estado diante da necessidade do bem-estar social e da gestão dos recursos, tão somente.
Aturdida, a presidente Dilma parece não ter consciência disso, da mudança desse contexto. Tanto que tenta governar com paliativos, oferecendo programas de encher os olhos dos menos favorecidos na escala social. E ai está outro erro grosseiro, o imediatismo, a busca de soluções paliativas para questões crônicas. A edição de bolsas e mais bolsas tapa buracos, atrai simpatias miojo, mas não promove perspectiva de longo prazo. E o que se vê hoje é o reflexo dessa ausência de perspectiva. A sociedade disse basta ao “pão e circo”.
Um bom exemplo desse aturdimento das autoridades foi o anúncio paralelo às manifestações de que o Ministério do Turismo deve lançar até o final do ano o Programa Viaja Mais Trabalhador, voltado para pessoas com renda de até quatro salários mínimos. De acordo com o ministério, a meta é incentivar a população de classe média baixa a viajar mais pelo país. Caramba! O cidadão de classe média baixa quer transporte de qualidade, saúde, educação, segurança, trabalho… Seria tão difícil entender isso?
A heterogeneidade nas demandas é o reflexo da insatisfação geral com o “estado do bem-estar social”. Não se refere tão simploriamente aos R$ 0,20 da tarifa que serviu, apenas, como faísca no rastrilho de pólvora em direção ao paiol de insatisfações da sociedade. Frustrações acumuladas que estouraram no anomimato das manifestações. É um conjunto de ausências envolto nos gastos exorbitantes do poder (a corte) e na desproporcionalidade dos custos da Copa no país.
Como na “Tomada da Bastilha”, o povo condena os excessos da corte e cobra a contrapartida do Estado. Não vai adiantar dar brioches…
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