A massa é burra, já disse alguém por aí

Marcos Machado 26/03/2017 0
A massa é burra, já disse alguém por aí

Por Marcos Machado

A partir de abril de 1933, Adolf Hitler e os nazistas começaram uma campanha contra os judeus, acusando-os de serem os responsáveis pela crise econômica e, pior, integrarem uma raça inferior que atrapalhava a Alemanha. Naquele tempo não havia internet, nem televisão, nem redes sociais. Era tudo no interpessoal, jornais e rádios. Mesmo assim, a fofoca vingou, resultando no sacrifício de mais de seis milhões de judeus e somando mais de 50 milhões de pessoas mortas na Segunda Guerra Mundial. Eles, os alemães nazistas, tinham convicção de estavam certos em sua indignação. Seu líder trabalhava sobre princípio de que “o indivíduo é inteligente, mas as massas são burras.”

Na manhã do dia 5 de maio de 2014, uma segunda-feira, a dona de casa Fabiane Maria de Jesus, de 33 anos, morreu, como resultado do linchamento ocorrido na noite do sábado anterior. Ela foi espancada por dezenas de moradores de Guarujá (SP), por causa de um boato disseminado em rede social, afirmando que Fabiane sequestrava crianças para realizar rituais de magia negra. A pacata dona de casa e mãe dedicada deixou marido e dois filhos. Ela era inocente. Nenhum linchador de Fabiane parou para pensar, perguntar, pesquisar.

Em Salém, Massachusetts (EUA), numa noite de outubro de 1692, a fofoca de duas pré-adolescentes resultou na condenação à morte de 20 pessoas por “bruxaria”, e à prisão de mais umas 150 pessoas. Depois das execuções, o juiz Samuel Sewall admitiu que cometera um erro aos sentenciá-las, mas já era tarde demais. Segundo relatos, a revolta popular e condenações foram embasadas no testemunho das primas Elizabeth “Betty” Parris e Abigail Williams, com nove e 11 anos de idade, respectivamente.

Até o final da tarde de quinta-feira (23.3.2017), 11 países já haviam suspendido a importação de carne brasileira. União Europeia e outros três países optaram por embargar apenas as compras dos 21 frigoríficos alvos da Operação Carne Fraca, deflagrada pela Polícia Federal.

Até antes da atabalhoada e imprecisa divulgação do “resultado” da operação, por um “inexperiente” delegado (e queiramos acreditar na ingenuidade e não outra coisa), a carne bovina, de frango e suína nacionais, e seus derivados, eram exportados para mais de 150 países, com uma média diária de embarque para o exterior de 63 milhões de dólares. Na terça-feira (21) caiu para apenas 74 mil dólares, somente quatro dias depois da proliferação exacerbada de desinformação e indignação coletiva nas redes sociais.

A operação aconteceu, sim, algumas irregularidades foram encontradas, naturalmente. Corrupção foi cometida, também, mas de forma mínima tendo como referencial o montante do sistema que engloba, só em frigoríficos, mais de quatro mil estabelecimentos. A investigação aborda 21 deles, ou seja, algo em torno de 0,5%, insignificante para tanto alarde e o prejuízo causado à economia nacional. Vamos lembrar que a PF não faz inspeção sanitária, sequer o delegado é qualificado para atestar laudos sobre segurança alimentar.

A massa é burra, disse o maior manipulador de massa da história, e essas evidências constatam tal tese. Nem precisamos voltar no tempo das “bruxas” de Salém, que tiveram os destinos selados irracionalmente, bem menos, outras perseguições decorrentes da desinformação disseminada ao povo, que se embebeda de razão e parte para a manifestação coletiva da indignação, sem pensar, sem avaliar dados, sem atentar para o contexto efetivo. O povo segue a onda, simplesmente.

De repente, o Brasil inteiro comia carne podre e salsicha de papelão, em um delírio coletivo propalado pelas redes sociais. É preocupante, é estarrecedor a que nível chegou a crise da carne e os prejuízos decorrentes dela na economia, que começara a esboçar reação após a destruição de suas bases pelos governos petistas.

O mais interessante é a fixação de muitos em permanecer no engano e esbravejar aleatoriamente contra o sistema que movimenta uma cadeia produtiva responsável pela entrada de recursos na economia brasileira, estimada em mais de 500 bilhões de dólares anuais, e geração de cerca de sete milhões de empregos.

O País levou quase uma década, depois da crise da febre aftosa, para recuperar a credibilidade no mercado mundial e se firmar como o maior exportador de carne bovina e o segundo maior em frangos, e tudo, agora, jogado na lama sem qualquer razão de ser.

Esbravejam sem ler nada a respeito (de fonte confiável), sem ouvir o que diz a própria Polícia Federal. Tratam a coisa como generalizada, sem atentar para os riscos ao país e aos desdobramentos políticos. Isto, sim, políticos, já que se a economia não se recuperar até o ano que vem, o lulopetismo virá com força em 2018, encantando incautos com seu discurso populista e de promessas vãs.

A Polícia Federal cumpre seu papel, é uma instituição séria e ações individuais não podem macular essa imagem. Se houve precipitação, desinformação, exagero, ingenuidade na divulgação pirotécnica da operação Carne Fraca, pequena demais diante do contexto global, mas importante, sim, para o combate à corrupção, cabe ao brasileiro avaliar de forma racional e responsável.

O que ficou explícito em todo esse lamentável episódio de conspiração e sabotagem à economia brasileira, a partir de alarde injustificado e a proliferação irresponsável e psicodélica nas redes sociais, é que a carne pode ser fraca, mas a mente foi mais, ainda.

Acho que vai ter futebol.

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